Voltando do Carnaval…

Estou com muitas aulas marcadas no primeiro trimestre desse ano (Clique aqui para ver a minha agenda), que precisam de apostilas, receitas e listas de compras; o Carnaval foi em março, empurrando tudo para frente; em casa adotamos mais um membro para a nossa matilha, a linda Olívia. Enfim estou lotado de trabalho. E, mais uma vez deixei o blog “esfriando” por alguns dias.

Mas no fundo prefiro assim: só escrevo quando tenho um assunto relevante…

Bom, lá no restaurante, voltamos a trabalhar na quinta-feira. Semana com apenas dois dias úteis, cidade vazia, estávamos com tempo para bater papo durante o nosso almoço. Sempre adorei esse meu momento do dia, quando realmente relaxo e quando consigo ouvir com atenção as pessoas com quem trabalho.

O assunto foi comida de rua. Já falei aqui em posts anteriores sobre alguns aspectos, fui até um pouco duro, reconheço. No entanto não inventei nada! Mas ficamos nos lembrando dos “podrões” mais famosos. E agora me ocorreu que todos tinham uma coisa pelo menos em comum: eram super saborosos! Pelo menos para dono das memórias. Pois era muito engraçado, alguém lembrava salivando da sua baixaria, e os outros todos com ânsia de vomito…

Podrão encontrado na Web... as pessoas comem cada coisa, né?!

OK, gosto é pessoal! (Mas que fique bem claro: encontrei essa imagem na Web, não cheguei nem perto dessa coisa!)

Mas isso envolve um conceito que aprendi na escola, que é basicamente a obrigatoriedade de emocionar o comensal com uma comida mais do que tecnicamente correta. Um pintor, se não quer ser apenas medíocre, tem de fazer alguma coisa a mais do que simplesmente retratar uma “natureza morta”. Isso vale para um escultor, arquiteto, design, fotografo,… E por que não para um chef?

Entre dois dos quadros de Antoni Tàpies, a obra de Ferran Adriá. Seria fácil dizer que alguma das imagens não é arte?

Ainda não somos uma profissão regulamentada, é verdade. Mas nem por isso somos menos artísticos! A criatividade, a técnica específica, a habilidade natural e o perfeccionismo não são nossas características comuns?

Recentemente li num livro o conceito chamado “legibilidade”. A idéia básica é que uma obra de arte, seja ela de qual modalidade for, precisa “contar uma história” para cada indivíduo. Não basta saber as técnicas, nem apenas utilizar ingredientes caros. É preciso estabelecer uma relação intima com o cliente, e promover um conjunto de sensações que vão despertar uma lembrança, e espera-se que seja muito boa.

Desenvolvendo um pouco o assunto faço um aviso, o tal conceito diz que o artista precisa imprimir uma emoção, ou um conjunto delas, intencionalmente. Mas não fala nada em obviedades! Criar um prato com uma nota italiana não é simplesmente acrescentar presunto de Parma, ou orégano seco, em tudo. A sutileza é outro conceito muito importante.

Muitos chefs de sucesso simpatizam com a idéia de que o comensal deveria “procurar” determinados sabores. Os paladares bem treinados seriam capazes de aproveitar melhor o trabalho artístico do cozinheiro. Quem sabe até perceber padrões que descreveriam o que chamamos de “assinatura”.

Mas encontrar um connaisseur no público da comida de rua deve ser uma tarefa difícil. Imagino que por isso mesmo nuances, notas de sabores e sutilezas não sejam expressões normalmente associadas a essa “especialidade”. Mas não se engane: existe emoção! E essa sim é o conceito central de nossa arte.

Boas lembranças para todos!

4 responses to this post.

  1. Posted by Luciana on 16 de março de 2011 at 12:08 pm

    Oi André, muito legal o seu post. Pude participar com vc desse papo do “podrão”. Acho que éramos nós 2 contra o restante da turma. Ainda bem que terminou no empate…rs.
    Mas com relação ao sabor, acredito que deve ser realmente saboroso mas o que me impressiona mais é como as pessoas conseguem comer com tanta sujeira? como pode alguém se deliciar comendo alguma coisa num ambiente que cheira a esgoto? lixo? infestação de moscas? sujeira?.
    Não dá para acreditar que esse tal de “Mac pombo” (como eles chamam) faz alguém feliz. Mas como eles dizem: “…é só fechar os olhos e se deliciar!” (que nojo!!!)
    bjs

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  2. Posted by Elaine on 26 de março de 2011 at 6:18 pm

    Este post me lembrou o “podrão” oficial comido no Uruguai, o chivito, que nada mais é que uma “montanha”de comida: salada de tomate e alface, salada de maionese, mta batata frita, presunto, queijo, ovos fritos, bifes, picles, pimentões vermelhos, champignons, bacon e azeitonas (se nao me esqueci de nada…). Tudo isso formando uma montanha em que a base começou nas saladas e o pico nas azeitonas… enfim, um verdadeiro “banquete”… Bjs

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  3. […] das “barraquinhas”, diga-se de passagem, são basicamente os mesmos que oferecem os “podrões” durante o restante do ano, […]

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