Restaurantes de portas fechadas

Como sempre estava pesquisando na Internet por algumas pistas para tendências no mercado de gastronomia, e quando me dei conta um assunto pulou no meu colo. Eu havia recebido um e-mail de uma amiga, e leitora, sobre um restaurante em São Paulo, que funciona de tempos em tempos, dentro da casa do próprio chef, com certo grau de improviso, e muito aconchego.

Essa idéia não era novidade para mim, pois eu mesmo já havia participado de uma experiência assim há alguns anos com outra amiga que estudou gastronomia comigo. E, daquela época ficou uma lembrança maravilhosa, não só da comida mas principalmente da atmosfera de prazer que se estabeleceu. Então, talvez por isso, a idéia tenha me atingido tão fortemente.

A minha metodologia de trabalho quando estou procurando informações sobre o futuro é simples: procuro alguns verbetes que já considero idéias contemporâneas e inovadoras; leio cada texto com rascunho a mão, e vou anotando, em tópicos, o que acho possível se tornar uma tendência; na medida em que as idéias vão passando por mim, alguns itens dessa lista vão sendo citados repetidamente, quando isso acontece faço uma marquinha para cada ocorrência; Ao final, tenho uma lista de tópicos interessantes ranqueados pelo número de ocorrências nos sites que considero “bons”!

O resumo do resultado obtido dessa ultima rodada de buscas seria alguma coisa parecida com isso: os eventos e baladas estão sendo substituídos por jantares mais íntimos entre amigos, com uma busca por referências caseiras, tentando mais alimentar a alma do que os corpos. O estilo “low profile”, onde sempre simples é mais, fica obviamente destacado. Vegetarianismo crescente, orgânicos e saudáveis em alta, produtos artesanais de altíssima qualidade.

Estamos, ou não, falando de restaurantes de portas fechadas?! Isso mesmo, chefs de muito talento estão se rendendo a esta modalidade de servir suas iguarias. Sem placa indicativa na porta, só aceitando reservas de amigos, ou de amigos de amigos. Sem a badalação para atrapalhar a nossa função principal, que segundo Brillant-savarin é “que um restaurante se encarregue de nossa felicidade enquanto estivermos sob seu teto”.

Ao contrário de como colocou Hervé This, “os chefs querem usar-nos para assistir a sua glória, nos subjulgar”, acho essa maneira muito mais aprazível a todos. Onde o próprio chef pode vir acrescentar histórias as suas receitas, e realizar pequenas modificações apenas para personalizar ainda mais a refeição.

Chego a concordar que pode parecer antipático se olharmos por alguns aspectos como a normal exigência de depósito adiantado para confirmar a reserva, da cobrança de taxa de cancelamento e até mesmo a dificuldade de fazer parte do seleto grupo, visto que só há amigos na lista de convidados, e para se inscrever é preciso conhecer algum insider.

Mas, também acho muito mais intimista do que um programa do tipo “teacher and dinner”, justamente porque não é um curso, não exige esforço nem formalidade, e sim uma oportunidade de conhecer outros gourmets, em geral frente a uma excelente refeição.

Assim vejo muito mais vantagens para todos: para o empreendedor vejo um baixíssimo investimento inicial, e pouco risco financeiro. Para o cliente, digo “amigo convidado”, as possibilidades de atendimentos super personalizado, certeza da ética no processo de produção e de encontrar novas pessoas que compartilham idéias (o espaço pequeno favorece a conversa), são atrativos irrecusáveis. Mas para o chef de cozinha cada vez que abrir a casa haverá prazer garantido, pois o pequeno volume e o cardápio reduzido permitem um perfeito controle de qualidade, além de a cozinha ser absolutamente autoral e autentica. As opções ainda podem ser maiores se incluirmos a harmonização com bebidas e com o ambiente em si. Sem sombra de dúvida é um tipo de restaurante para satisfazer a arte da gastronomia. É um programa nada óbvio, mas enriquecedor.

Muitas pessoas me perguntam por que eu ainda não abri o meu próprio restaurante. Respondo quase sempre que no inicio da carreira esse era o meu gol, mas depois comecei a achar a idéia “escravizante” demais. No final a relação lucro-benefício me levaria a um negócio maior, com mais volume de recursos envolvidos, e obviamente mais aborrecimentos. Gosto de viver de forma simples, sem desperdiçar minha energia.

Agora vou passar a responder assim: tão logo encontre um imóvel perfeito, vou abrir o meu restaurante de portas fechadas, apenas algumas vezes por mês, para dar vazão aos meus instintos criativos, e também para mostrar que as refeições podem ser simultaneamente boas e recheadas de ética. O nome eu até já escolhi, e espero vocês lá.

Boas descobertas!

2 responses to this post.

  1. Posted by Luciana Arraes on 1 de maio de 2011 at 1:06 am

    Opa! Pode botar meu nome na fila de espera já!!! 🙂 Só conheci 3 cozinhas deses tipo: Aranzabal em Bilbao, Chez Marcianita e J. Araújo no Rio. Adorei as 3 experiências. Tanto pela comida quanto pelas experiências e histórias que pude ouvir durante o jantar.

    Responder

  2. Posted by Caroline Rodriguez on 20 de agosto de 2012 at 4:49 pm

    Fala professor! Carol da UNIRIO bueno tô com um projeto desses aqui em Buenos Aires …. dá uma olhada no pioneiros portenos.
    http://www.planetajoy.com/?Restaurantes_a_puertas_cerradas%3A_nuestros_9_recomendados&page=ampliada&id=1171

    Responder

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