Comfort food

Como alguns dos leitores desse blog já devem estar sabendo, acabo de inaugurar o meu próprio restaurante. Foi uma batalha sangrenta, e que ainda está em curso. Mas finalmente posso desenvolver os conceitos que mais me atraem na Gastronomia.

Muitas vezes fui questionado sobre tal questão. E, minha resposta sempre foi a mesma: a idéia de gerir o meu próprio negócio era atraente, mas incorria num risco financeiro muito grande. Não fui agraciado com dinheiro de família, ou sócios investidores enlouquecidos pelo meu talento. Então, sempre tive um certo medo de arriscar. No entanto, agora me senti pronto para tentar. Acontece por vezes, alguns devem me compreender, uma espécie de chamado que não pode ser deixado de lado.

Letreiro interno do Benoit

Restava uma lacuna a ser preenchida que seria determinante para um novo restaurante. Simplesmente era preciso selecionar de uma paleta gigantesca um estilo, um conceito, que fosse ao mesmo tempo interessante para aos clientes e para mim.

Gastronomia Molecular…não! Eu já não suporto mais ver pessoas fazendo “bolinhas de não sei o que”, “fumaças de nhenhenhém”, e outras coisas assim! Não me interpretem mal, pois acho a ferramenta muito boa. Mas tenho a convicção que não pode ser um fim em si mesma!

Depois pensei em algo mais “temático”, como italiano ou mexicano. Apesar de atraente sempre tive vontade de ser um pouco mais autêntico. Nem ficaria bem eu, nascido e criado num subúrbio da Cidade Maravilhosa, colocar um sombrero e um enorme bigode falso para poder escrever o cardápio.

Então, fui procurar alguma coisa menos explorada. Algo mais verdadeiro. Uma coisa que viesse a me representar um pouco mais. Estive estudando, nos últimos meses, com muito cuidado, um conceito em gastronomia que é razoavelmente novo: o Comfort food. É isso mesmo, com “m” antes do “f”! É uma expressão da língua inglesa, que em nosso ofício quer representar uma comida aconchegante, que possa trazer um sentimento de acolhimento.

Capa de um livro antigo sobre Comfort food

Assim que inaugurei o restaurante tive dificuldade em explicar aos clientes tal ideia… mas finalmente um pequeno grupo de rapazes me pediu para resumir em apenas duas ou três palavras. Senti o meu sangue fervendo por trás da pele do meu rosto. Mas num lance de sorte me ocorreram as palavras “comida de vó”. Fiquei muito feliz em conseguir definir a minha abordagem!

O fato é que agora estamos em pleno funcionamento. Produzindo uma comida que vem com memórias embutidas, geralmente da infância. Que apenas de sentir o cheiro os nossos olhos poderiam ficar úmidos. Comida simples, de origem caseira. Que traz um bem-estar imediato.

Cena do Ratatouille, onde o Remy descreve o prazer de comer

Os adeptos da fast food, ou da super elaborada haute cuisine, que me desculpem. Mas o ato de cozinhar é mais do que um emprego, ou uma carreira. O amor que as coisas são preparadas é transformador. A comida precisa ser degustada, sem pressa alguma. Precisa ser apreciada, respeitada e compreendida, o que não se pode fazer em poucos instantes.

Ingredientes frescos de ótima qualidade, combinados em preparações simples e gostosas. Sem rótulos que possam aprisionar as novas possibilidades. Os ingredientes não precisam, nem devem, ser restritos a uma região do mundo. As técnicas devem ser bem executadas, mas não ficam restritas a uma linha de raciocínio específica. A maior, e provavelmente única, limitação é que a refeição traga a memória gustativa para o centro da atenção! O relógio diminui de importância a cada porção. As questões tecnicistas também. O que realmente é relevante é o sensação aconchegante.

Imagem do conceito central do Comfort food

Desejo que vocês tenham tanto prazer ao comer quanto eu!

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6 responses to this post.

  1. Posted by Cristina Guimarães on 18 de junho de 2014 at 2:13 pm

    André, parabéns por esta conquista. Fico muito feliz e desejo muito sucesso.
    Também adorei seu conceito, compartilho dessa filosofia na gastronomia.
    Agora quero conhecer seu restaurante. Qual o endereço?

    Forte abraço,
    Cristina Guimarães

    Responder

  2. Posted by Bárbara on 20 de junho de 2014 at 5:08 pm

    Olá André, fiquei encatada com a sua apresentação da comfort food, adoraria visitar seu novo empreendimento e provar dessa “comida de avó” ! Você fica no Rio? Amei o blog, estou seguindo. Sorte com seu sonho!

    Responder

  3. Posted by VALERIA JARDIM on 19 de junho de 2015 at 5:53 pm

    Olá André, por gentileza entre em contato comigo pelo telefone +55 31.9975.0995 ou +5541 8757-5120 – a respeito de um job (consultoria temporária) para apresentação dos pratos de um restaurante que estamos reestruturando em Curitiba.
    Abertura prevista para julho/15. Já temos toda equipe de cozinha, aguardando para este treinamento.
    Aguardamos o seu breve retorno e agradecemos,

    Atenciosamente,

    Valéria Jardim

    Responder

  4. Posted by Giovana Ivo on 31 de março de 2016 at 10:19 am

    Bom dia André, excelente texto. Estou escrevendo meu TCC sobre Comfort Food, se você tiver algum livro ou pdf e pudesse me indicar, que como você mesmo falou em seu texto é uma área da gastronomia muito nova. Dês de já agradeço, sucesso em seu restaurante e vamos difundir o Comfort Food!

    Responder

    • Infelizmente, a livros que conheço sobre o assunto são basicamente livros de receitas, e geralmente em inglês.
      Todo o conceito é tão recente que ainda não deu tempo de desenvolver o mercado em torno da ideia.
      Boa sorte com a pesquisa.

      Responder

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