Archive for março \10\UTC 2016

Viagem de navio – Parte 1

Mesmo como câmbio hostil viajamos. Pegamos um avião do Rio a Santiago, no Chile.

A viagem ao Chile é muito rápida, e não chega a ser um destino dos mais caros. Mas o que mais me impressionou foi a localização do nosso suntuoso hotel, minha guia turística particular e esposa, conseguiu nos deixar no centro de tudo, e muito bem acomodados .

Como só iríamos ficar apenas um dia, não perdemos tempo: malas no quarto, e corremos para a rua. Mal pusemos o nariz fora da porta e já tive o primeiro desafio de provar o “Mote con huesillos”. Uma impensável combinação de pêssegos em calda, servidos na calda gelada com grãos de cevada no fundo. Parece estranho, e em especial o visual: o pêssego é cozido inteiro com caroço e tudo, e fica enrugado como um cérebro. Mas é delicioso! Tive que provar mais de uma vez, apenas para me certificar de como uma coisa tão louca poderia ser tão boa.

Partimos a pé para o Mercado Central de Santiago, uma versão pouco diferente dos mercados municipais do Brasil, na verdade dividido: de um lado da avenida um mercado muito parecido como o que temos na CADEG, e do outro algo muito mais assemelhado com o Mercado Municipal de São Paulo.

 

Aproveitamos os dois estilos e de um lado compramos 1 Kg de enormes, e doces, e de um vermelho profundo, e doces, e perfeitas, e doces, cerejas chilenas. Simplesmente maravilhosas. Os morangos, blue berrys, avocatos e todas as outras coisas ficaram acanhadas diante delas.

Atravessamos a avenida. E fomos nos divertir para valer. Há um mercado de peixes e frutos do mar em torno dos restaurantes. Os animais ainda estão vivos! Mas de fatos estávamos lá para uma tarefa importante… comer um King Crab, ou centolla como se diz naquelas paragens. Acompanhamos o show que o garçon proporciona ao desossar(?!), o tal bicho espinhento. O homem tem muita prática, e transformam a tarefa de comer a carne fantasticamente doce numa simples exercício de “levantamento de garfo”.

A emoção é tanta que quase me esqueci do nível máximo de uma aventura radical, comer ceviche num ambulante de rua. Escolhi uma barraquinha (na verdade um carrinho de supermercado com um guarda-sol adaptado), cheia de “locais” comendo com voracidade. A simpática atendente colocou uma generosa porção de ceviche sobre um espaguete frio e salpicou grãos de milho fritos e salgados. Como uma baiana do pelourinho ela me perguntou se eu gostaria da iguaria quente. Confesso que com tudo isso tremi, mas comi assim mesmo. Estava comendo em pé, num pratinho de plástico, numa barraquinha, no meio de dezenas de barraquinhas semelhantes, sobre uma ponte, sobre um rio com uma correnteza marrom. Nem isso, nem o trânsito intenso e a multidão que se esfregava por ali não puderam embaçar o incrível sabor que aquela iguaria tinha. Uau! Tenho poucas palavras no meu vocabulário para descrever como estava bom.

ceviche chile

Apenas para registrar o ceviche é uma preparação que o Peru, e outros lugares como o Chile, reivindicam sua propriedade intelectual. É basicamente peixe, ou outros frutos do mar, “cozidos” na acidez do limão com temperos como cebolas, pimentões e coentro. E pimenta, é claro! É maravilhoso, e merece ser provado.

A viagem continuou com o nosso embarque num navio, com destino ao Rio, mas conto mais num próximo post.

Boas experiências gastronômicas!

Obs.: Normalmente uso a minhas próprias imagens de viagem, mas nesse caso não ficaram tão boas. Mas, apenas usei fotos buscadas na Internet que tinham semelhanças com as nossas.

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NYC para comer!

Algumas viagens que nós fazemos criam marcas nas nossas memórias afetivas que até parecem tatuagem. De repente, você está assistindo um filme, ou lendo um livro, e as suas lembranças ligadas aos fatos ocorridos naquelas férias maravilhosas voltam feito um turbilhão de ideias.

Essa cena representa o sentimento que qualquer chef de cozinha, por mais mequetrefe que seja, gostaria de imprimir num comensal. Com apenas uma ou duas garfadas, naquele produto de horas de trabalho, a feliz cobaia é abduzida por um redemoinho que mistura as camadas de sabor do que está comendo agora, com as lembranças das sensações anteriores, refeições degustadas e, emoções vivenciadas.

Estive num mercado, em Nova York, fantástico chamado Chelsea Market. Um fabuloso, e quase indescritível, lugar para ser feliz. Um punhado de lojas, num mix que deixariam qualquer gourmet interessado. Tenho até dificuldade de decidir qual foi o ponto alto dessa visita.

chelsea market

Poderia começar a minha lista de lugares a visitar no tal mercado pela loja de especiarias. O que é aquilo? As cores, os cheiros, as possibilidades,… Inspiração pura!

Havia uma loja de utensílios de cozinha, que você leva cerca de 2 horas apenas para olhar. Na metade do centro comercial existe um espaço subdividido entre diversos comerciantes dedicados ao mercado de peixes e frutos do mar. Tudo junto e misturado: com sushi bar, fast food, venda de produtos muito frescos (alguns até vivos) e um lugarzinho escondido lá no final… onde foi preparada a melhor bisque de lagosta que eu já comi, em todos os tempos.

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Chegamos cedo, para tomar um glorioso café da manhã, ou quem sabe fazer um brunch logo após a visita ao mercado. Mas isso não foi possível. Fui praticamente obrigado a comer o tempo todo. Ali é possível comprar ostras, ouriços vivos, lagostas de todos os tamanhos, peixes, e um monte de coisas maravilhosas e pedir para prepara na hora.

Saindo deste espaço encontramos um pequeno, e autêntico, restaurante tailandês (o pessoal que “atendia” e “cozinhava” praticamente não falava inglês)… a experiência é surreal: na parede fotos sem nenhuma técnica mostravam os pratos (sim, esse era o cardápio), e com o número da preparação era possível “se comunicar” com a senhora do caixa e fazer o pedido. O cenário do salão era quase triste. Um balcão virado para a parede com alguns bancos e uma única mesa “comunitária”, com algumas poucas cadeiras, todas diferentes e desconfortáveis formavam o ambiente. Uma pequena janela liga o “salão” à cozinha, onde você pode assistir os cozinheiros produzindo o que será provado em instantes.

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Mas o que parecia que iria se tornar um pesadelo nos trouxe uma enorme surpresa positiva: a comida era incrível. Saborosa, farta, perfumada, honesta, quente,… linda, corretamente feita. E simples o suficiente para mostrar a sua qualidade superior, mas sofisticada pelas combinações de sabor.

As panelas são "lavadas" ali no fogão mesmo... A chama que aquece a Wok é praticamente um vulcão! Não chega a levar 1 minuto para ficar pronto!

A loucura gastronômica não parou por aí, já na saída havia uma sorveteria incrível, num cantinho despretensioso. Mas havia uma dica: os atendentes não paravam por um minuto sequer. As pessoas passavam, e voltavam. O cardápio era variado, mas pequeno. Os sabores bem pronunciados. Comi dois: gengibre e azeite. Maravilhosos! Sem defeito! Sou só elogios!

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E olha que a minha memória anterior de sorvete de gengibre é boa (vale a pena conferir no Vegetariano Social Clube), mas o que eu comi mudou totalmente a minha memória gustativa.

A experiência foi tão incrível que tentei reproduzir com outro sabor (o de azeite). O resultado também foi indescritível, neste caso, minha referência era o sorvete de azeite servido no finado restaurante Eñe, durante o menu confiance que eles faziam. Algo assim… sobrenatural. Tanto a antiga e saudosa lembrança, quanto a nova (e já saudosa) eram muito boas. Mas a sorveteriazinha ganhou no quesito consistência, pois o sorvete deles estava como deveria ser, sem tirar, nem por!

Mas, nem tudo que se come em NYC é maravilhoso. Os fãs que me perdoem, pois o que provei na confeitaria do Bud Velasco, não estava de acordo com a fama e o visual dos quitutes do astro da tv. E olhe que dei várias chances: cheesecake, canolli, cupcake e red velvet.

Tirei o gosto ruim da boa, quando provei um verdadeiro red velvet, feito numa padariazinha escondida na Central Station. Fiquei com receio e pedi um pequeno. Se arrependimento matasse…

Outras notas importantes: Existe um outro mercado fantástico chamado Eataly, onde comi uma massa perfeita, e vi produtos lindos; As lojas de frutos do mar de Chinatown; Uma pequena loja de sais gourmet no subsolo do Rockfeller Center; NY Hotdogs numa barraquinha no Central Park, as fartas porções do famoso “podrão” Carmine’s, e muito mais.

Pois, é. Fui, comi e voltei a escrever.

Boas viagens gastronômicas!